Alípio Corrêa Netto – ECBC


Alípio Corrêa Netto, catedrático de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e da Escola Paulista de Medicina (atualmente UNIFESP) é, sem dúvida, um dos expoentes da medicina brasileira.
Nasceu em Cataguases (Estado de Minas Gerais). Formou-se em 1923, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Foi assistente do saudoso Prof. João Alves de Lima, antigo professor de Clínica Cirúrgica e, como didata, era um dos mais lídimos continuadores da obra de Lemos Tôrres. Em setembro de 1935, prestou concurso à Cadeira de Clínica Cirúrgica e foi nomeado professor catedrático, após brilhantes provas, em 5 de novembro de 1935.
Tendo conquistado a honraria máxima da carreira universitária, Corrêa Netto não fez da cátedra um fim, mas um meio para, com energia e perseverança, orientar e incentivar os que se acolhiam sob a sua direção. Deu à sua Enfermaria novas diretrizes, pois aí criou os grupos de especialidades cirúrgicas. O resultado desse sistema de trabalho não tardou a se fazer sentir e é, atualmente, adotado em todo o País. Foi um dos grandes propugnadores da verdadeira especialização, que levou à instituição dos cursos de extensão universitária, criados hoje, às dezenas, pelas Escolas e Sociedades Médicas do Estado e do País.

Organizou, ao assumir a direção da “3ª Cirurgia de Homens” da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, pela primeira vez, um Serviço de “Follow up”. Ainda na Santa Casa, foi o precursor dos bancos de sangue no Brasil, com a fundação do Banco de Sangue Conservado.

Dentre os muitos postos ocupados por Corrêa Netto, destacam-se: Membro do Conselho Técnico Administrativo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Representante da Faculdade de Medicina no Conselho Universitário; Presidente da Academia de Medicina de São Paulo; fundador e Presidente da Associação Médica Brasileira; Presidente do Colégio Brasileiro de Cirurgiões; Deputado à Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, onde sua atuação foi marcada pela elaboração de importantes projetos de caráter médico-social, transformados em leis em 1952; Secretário de Higiene da Prefeitura Municipal de São Paulo, onde organizou os quadros do Pronto Socorro Municipal; Capitão-Médico, chefe do Serviço do Hospital de Sangue de Cruzeiro, durante a Revolução Constitucionalista de 1932; Major Médico da Força Expedicionária Brasileira, na segunda Grande Guerra; na Itália, chefiou a Secção Brasileira do 32º Hospital de Campo, atuando na linha de frente, em Valdibura. Recebeu as seguintes condecorações: “Bronze Star Medal” a 5 de julho de 1945, “Medalha de Campanha” a 16 de outubro de 1945 e “Medalha de Guerra” a 30 de abril de 1947. Da cirurgia torácica, foi Corrêa Netto o pioneiro em nosso país. Na década de 1930, sobressaiu-se por importantes contribuições à cirurgia do pulmão, coração, esôfago e mediastino. Dentre sua numerosa produção científica sobre a tuberculose destaca-se o extraordinário trabalho sobre o mecanismo de cura da caverna tuberculosa. Marcou época, ainda, seu trabalho sobre a indicação da colapsoterapia cirúrgica nas lesões tuberculosas bilaterais. Não descuidou Corrêa Netto dos outros setores da cirurgia torácica. A cirurgia das afecções pulmonares não tuberculosas, do esôfago e do coração, iniciou-se em suas mãos e, dessas mãos generosas e amigas, transmitiu-se a seus assistentes, renomados por valiosa contribuição a esse importante capítulo da cirurgia.

Compreendendo a importância das moléstias vasculares periféricas e do simpático, foi o primeiro a incentivar e orientar o seu estudo sistemático entre nós. Dedicou particular atenção à propedêutica das varizes dos membros inferiores e delineou com clareza as bases de seu tratamento cirúrgico racional. Seus assistentes desenvolveram seus estudos e suas idéias, publicando numerosos trabalhos, monografias e teses, testemunho perene à chama criadora do grande mestre e amigo.

Em 1934, com a publicação do trabalho “Tratamento cirúrgico do hipertireoidismo” inaugurou, com base científica, a cirurgia da tireóide e, principalmente, da tireotoxicose, em São Paulo e no Brasil. Grande estudioso e profundo observador, analisou, com espírito crítico, os trabalhos fundamentais de Kocher, Plummer, Marine, Hertzler, Crotti, Crile, Means e tantos outros e racionalizou, entre nós, o tratamento pré-operatório do hipertireoidismo, com o qual afastou-se, em grande parte, o perigo das crises de hipertireoidismo pós-operatórias. Foi o primeiro a observar e a tratar casos de tireotoxicose cardíaca; aperfeiçoou de tal forma a técnica, esquematizando com rara simplicidade os tempos mais delicados da operação.

Grande mestre que foi, Alípio Corrêa Netto não se limitou a produzir e a doutrinar. Fez Escola e, através de seus discípulos viu a sua obra agigantar-se mais e mais numa consagração à qual só fazem jus os grandes, os verdadeiramente grandes, pela sua bondade, pela sua simplicidade, pela sua modéstia e desprendimento.
O Prof. Euryclides de Jesus Zerbini iniciou sua carreira na Santa Casa como assistente do Prof. Alípio Corrêa Neto; este último realizou na Santa Casa, em 1941, uma operação pioneira de retirada de um corpo estranho do coração. O paciente chegou com uma faca encravada na fossa supraclavicular, com o cabo balançando a cada batida do coração. A situação foi resolvida com a abertura do tórax e a retirada da faca, suturando-se o coração e o pericárdio. O doente sobreviveu. Naquela época foi uma façanha memorável.

Suas atividades, visando o bem público, não se limitaram ao estreito âmbito de sua ação de professor e de médico. Sentindo a necessidade de alongar os horizontes de ação, ingressou na política, filiando-se à doutrina que melhor sincronizava com os ideais dos médicos, conhecedores que são dos sofrimentos e das injustiças decorrentes das condições sociais do Brasil. Eleito Deputado Estadual, soube manter íntegras as qualidades que o fizeram respeitado na classe médica. Fugindo às lutas estéreis que caracterizam a ação da maioria de nossos parlamentares, estudou e concretizou em projetos de lei – mais tarde aprovados e sancionados – normas para melhorar e garantir a assistência médico-hospitalar no Estado.

A análise rápida que realizei da ação de Alípio Corrêa Netto como professor, médico e homem público, justifica o que disse de sua personalidade. Batalhador sereno e incansável, espírito arguto e observador seguro, frio no raciocínio e persistente na ação, conquistou, aos poucos, todos os altos postos reservados aos médicos, aos professores e aos homens que a sociedade respeita. Nunca, porém, usufruiu de tais cargos para benefício próprio; usou-os antes, para, através do prestígio e da autoridade que deles emana, realizar alguma coisa de bom e de profícuo para o bem público.

JAIRO RAMOS

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