Ruy Escorel Ferreira Santos – ECBC


Ruy Escorel Ferreira Santos nasceu em São Paulo em 10 de Maio de 1917. Nasceu pelas mãos de uma parteira em casa. Filho de pai médico, José Ferreira Santos, formado na primeira turma da Faculdade de Medicina de São Paulo e mãe, dona de casa, Palmerynda Ophelia Escorel Ferreira Santos, filha de Clementino de Oliveira Escorel, lente de Direito Romano da Faculdade de Olinda e Recife e, posteriormente de Direito Criminal da Faculdade de Direito de São Francisco. Ferreira Santos estudou no Ginásio Bento de São Paulo, de tradição rigorosa, mas humanista. Sua mãe, tias, irmãs e primas estudaram e foram muito ligadas ao Colégio Sion. Também tiveram importância em sua formação seu padrinho de batismo, Prof. Benedito Montenegro e um tio-avô de formação militar, oficial pernambucano da Marinha de Guerra.

 

Esses personagens, fundamentais em sua criação, viviam um ambiente que atribuía alto valor ao conhecimento e ao rigor moral. São valores que estão na base de sua trajetória profissional como cirurgião, que foi marcada pela integração entre a habilidade técnica e competência científica e a preocupação com a formação humanística e abrangente dos médicos.

Ruy Escorel Ferreira Santos formou-se médico na Faculdade de Medicina de Pinheiros em São Paulo em 1940, período em que os hospitais de apoio àquela escola ainda eram a Santa Casa e o Hospital Matarazzo. Quando o grande Hospital das Clínicas de São Paulo foi construído estava se formando e logo após a inauguração, em 1940, passou a fazer parte de seus quadros, como Assistente da 2ª Clínica Cirúrgica e participando dos primeiros plantões. Em 1950, defendeu Livre Docência com trabalho sobre Pancreatite Aguda e escreveu tese sobre Estenose Mitral, com a qual se candidatou para concurso de Cátedra em Belo Horizonte.

O aprendizado profissional em meio a um processo de construção de procedimentos e condições de tratamento; conhecimentos e formas de cura que eram testadas, por sua vez, será marcante em sua própria ação. Quando foi convidado por Zeferino Vaz a participar da fundação da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto sentiu-se atraído pelo desafio de construir o novo e desistiu por isso do concurso de Belo Horizonte. Em 1963 defendeu tese “Tratamento Cirúrgico da Aperistalse do Esôfago”, conquistando título de Professor Catedrático Vitalício de Cirurgia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Com a colaboração de assistentes que convidou ao iniciar o trabalho, construiu o Departamento de Cirurgia do qual foi Diretor por mais de vinte anos.

Ruy Escorel Ferreira Santos participou pioneiramente da inovação de técnicas cirúrgicas, como a das de cirurgias cardíacas com circulação extra-corpórea para introdução de pontes de safena; ensinou gerações de alunos; escreveu muitos trabalhos; teve grande reconhecimento; participou de associações médicas e cirúrgicas e recebeu títulos honoríficos nacionais e internacionais. Mas, o que talvez melhor expresse como desenvolveu sua carreira sejam suas próprias palavras ditas quando recebeu o título de cidadão de Ribeirão Preto, em 1986:

Cabia–me ensinar cirurgia, ensinar praticando-a e estimulando indagações e reflexões que buscassem novos rumos e requeressem passos adiante. Ai estão as metas que venho procurando alcançar, gerações após gerações de alunos e discípulos.

Pratiquei cirurgia e continuo a praticá-la. Dia após dia, no consultório ou no ambulatório, nas enfermarias ou na sala de operação, atendi muitos e muitos, escutei-lhes queixas e dores, guiei-lhes quando possível o tratamento, tenho operado alguns tantos e, felizmente com mais acertos do que falhas, logrei dar alívio a um bom número, esperança a outros e consolo aos desenganados. Na vida profissional, que já vai longa, muito tenho aprendido com enfermos e, amadurecido com o tempo, aprimorou-se a capacidade do relacionamento empático que capta não somente a queixa atual do paciente, mas também seus problemas no contexto sócio-familiar, sua personalidade.

Acreditava na medicina e nas possibilidades de intervenção, cura e melhora que pode proporcionar. Foi ele próprio paciente de cirurgias como a cardíaca para colocação de pontes de safena e implantes mamários (1975 e 1984) e outras tantas correções cirúrgicas necessárias, como as de menisco e hérnia de disco. Toda essa prática alicerçada em uma visão humanística de uma medicina voltada para o doente, para o ser humano. Preocupava-se em ensinar os alunos que o médico não era apenas alguém que segue protocolos, receita tratamentos, prescreve exames sofisticados. O médico é uma pessoa em relação com outra pessoa que sofre. Essa pessoa tem nome, história, sentimentos. O respeito ao paciente começa pela cama do paciente internado, que não é uma cadeira para o médico displicentemente se sentar; o respeito ao paciente passa pela sua individualidade que não cabe na ritualização de procedimentos de UTIs.

No fim da vida preocupava-se, porém com os rumos tomados pela medicina, com os diagnósticos apoiados em evoluções técnica que afastavam o médico da escuta do paciente, com o tratamento serial, com os protocolos. E fez seu alerta ao receber este mesmo prêmio:

A medicina e a cirurgia são ciência e arte. A ciência médica tem tido um progresso enorme e incessante que nos deixa maravilhados. A arte médica foi esquecida (…) Há um cientificismo quase fetichista de modelo anglo-saxão que nossa submissão colonial vem imitando. (…) o modismo de fixação de rotinas e protocolos que, aplicados com fidelidade acrítica acarreta situação de grandes riscos as UTIs (…) tratamentos absurdos (…) com risco e erros, pois não se trata o doente, mas sim o carimbo doença que lhe foi aplicado (…), de fazer corar, de fazer chorar.

Morreu em Novembro de 2003, assim como nasceu: em casa. Cercado pela família, assistido por médicos ex-alunos que o visitavam e dele tratavam. Viveu sim, e com entusiasmo os benefícios trazidos pelos progressos da medicina, mas morreu afastado da desumanização que a acometiam e que via crescerem com perplexidade e preocupação. TCBC Antonio Ziliotto Junior

HOMENAGENS

Por ocasião do recebimento do título de Cidadão Ribeirãopretano, em Outubro de 1986, assistentes que o saudaram proferiram discursos em que procuraram transmitir traços de sua personalidade.

“Nesta oportunidade em que tenho o privilégio de saudar o Prof. Ferreira-Santos, ressaltarei brevemente dois de sues aspectos que exerceram poderoso tropismo sobre os que os cercam:

Em primeiro lugar sua grande vocação para o ensino que o identifica como um autêntico Mestre-Chefe de escola na concepção dos filósofos gregos e dos valores renascentistas. Quantos, sob efeito de sua energia irradiante e contagiante, vibraram em ressonância com seus ensinamentos!

Em segundo lugar, assinalo o seu respeito ao ser humano, quer ele se chame colega, amigo ou discípulo, mas eclodindo em toda a sua plenitude no trato com os doentes.

Respeitando a dignidade humana de cada um, característica que hoje em dia, na era das máquinas e dos computadores, é frequentemente subvalorizada, o Professor FERREIRA SANTOS demonstrou a sua própria imensa dignidade, tanto nos momentos mais alegres, como nos momentos mais difíceis de sua vida.

O Professor FERREIRA SANTOS é um homem que irradia luz; é um dos raros faróis que ainda clareiam com seus fachos os céus da cultura onde, na atualidade, muitos gomos estão sombrios. É um clarão que guia os que querem progredir mas que tenha grandeza de não pretender ofuscar ninguém, permitindo que cada qual emane seu próprio brilho que, por sua vez, ilumina novos caminhos.”

Píer Luigi Castelfranchi

O ECBC Ruy Escorel Ferreira Santos foi Presidente do 26º Diretório Nacional do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (1983-1985) e o primeiro Vice-Mestre da Regional de Ribeirão Preto do Capítulo de São Paulo do CBC (1975-1979).

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